FANZINES-PERSONAGENS (PARTE-01)

Muitas vezes o processo de criação de personagens é intuitivo, onde você acaba usando algum personagem que goste como base e agregando referencias e fatores diferentes. Este método intuitivo pode ser interessante, mas geralmente resulta em um personagem vazio, sem conteúdo e muito parecido com tantos outros já criados. Cada gênero de quadrinho pede tipos próprios de personagens (Os personagens de um mangá shojo serão bem diferentes dos personagens de um quadrinho de super-heróis) mas as ideias aqui apresentadas são básicas, abrangendo todos os gêneros de quadrinhos e qualquer outro formato de história (seja filme, teatro, cinema, etc). Hoje falaremos da estrutura e conteúdo do personagem e em outro post trabalharemos a concepção da forma.

ARQUÉTIPOS

Existem certos tipos de personagens que são recorrentes nas histórias e até mesmo na vida, como pessoas em jornadas implacáveis, sombras antagônicas e arautos que inspiram e motivam a lutar. O psicólogo suíço Carl G. Jung acreditava que existiam padrões de personalidade compartilhados por todos os seres humanos, e estes padrões ele deu o nome de Arquétipos. Ao enquadrar seus personagens em arquétipos predefinidos fica útil usa-los como ferramentas e recursos dentro de sua história. Vou me basear na abordagem dos arquétipos usada no livro A JORANDA DO ESCRITOR de Christopher Vogler.

Um personagem não precisa necessariamente desempenhar a função de um arquétipo especifico do começo ao fim da história, podendo variar de função no decorrer da mesma conforme a necessidade. Essa flexibilidade permite um melhor uso dos personagens, propiciando surpresas e reviravoltas de trama. Segue abaixo os arquétipos propostos por Jung.

  • HERÓI: É aquele que luta por um objetivo maior, que esta disposto a se sacrificar em pro de uma causa. Normalmente serve como personagem central da história, e aquele a qual o leitor vai se identificar. O herói passa pela aventura e através da convivência com os outros arquétipos ele vai agregando valores, se tornando mais melhor do que era quando iniciou a sua jornada, se tornando mais “completo”.
  • MENTOR: Ele normalmente é a figura sábia que ensina e concede dons ao herói. O mentor representa uma figura experiente, que já viveu suas jornadas e com o que aprendeu consegue auxiliar o herói em sua travessia. Não é necessitário que a figura do mentor seja física na história, podendo surgir como um flashback ou um código de conduta a ser lembrado.
  • GUARDIÃO DE LIMIAR: Os limiares são as passagens dentro da trama, as “portas” para cada fase do caminho, e entre eles o herói vai encontrar obstáculos a serem superados, são os guardiões de limiar que estão ali para dificultar o seu progresso. Este arquétipo não representa o vilão da história mas sim os capatazes, mercenários ou mesmo figuras neutras que fazem parte do caminho. A função deles na trama não é deter, mas sim testar o herói em sua jornada.
  • ARAUTO: Nos tempos da idade média existiam os arautos, que eram emissários que possuíam a função de levantar a tropa, já como arquétipo, a função do arauto é dar ao herói a motivação necessária para seguir sua jornada. Um arauto da forças ao herói para que ele consiga romper a barreira cômoda de seu mundo e enfrente as mudanças necessárias para sua evolução.
  • CAMALEÃO: Existe aquele personagem com comportamento oscilante, que deixa o herói e o leitor confuso e sem saber se pode contar com ele como aliado ou se ele esta do lado do inimígo. Por ser tão imprevisível e mudar com frequência, este tipo de arquétipo é chamado de camaleão. Comumente a figura do camaleão é do sexo oposto ao do herói, justamente para gerar o conflito de dúvida e incompreensão existente entre os dois sexos. A função do camaleão na trama é acrescentar suspense e mistério.
  • SOMBRA: A sombra é o vilão da história, e ele não precisa ser necessariamente mal – Ele apenas é antagônico ao herói e seus propósitos. Ele representa uma ameaça real que pode destruir todo o propósito do herói e muitas vezes sua própria vida. Na trama, a sombra representa um desafio que o herói só conseguirá sobrepujar se conseguir assimilar os ensinamentos e experiências que teve no decorrer de sua jornada.
  • PÍCARO: Este arquétipo serve para dar um tom mais cômico e brincalhão a trama, quebrando o gelo quando a coisa ficar séria demais. Serve para manter o equilíbrio da tensão e do alívio, pois uma trama que não oscila pode se tornar exaustiva para o leitor. Um pícaro pode ser um aliado, inimigo, neutro – Ele deve ser usado no momento certo para servir de alívio cômico na trama.

Lembrando que os arquétipos não são estáticos, gerando subgêneros (como o caso do anti-herói) e podendo se combinar para desempenharem uma função específica. Existem personagens como “mulher gostosa e burra”, “policial bom e policial mau”, “criança inteligente e precoce”, mas todos são variações dos arquétipos apresentados acima.

BACKGROUND

Um personagem interessante deve possuir seus próprios defeitos e qualidades, são os fatores que o tornam único. Montar um background, um passado que explique de onde vieram todos seus vícios e virtudes é uma ótima maneira de deixar i personagem mais real e palpável para o leitor. Como era seu personagem na infância? Como foi sua criação? Ele era bom aluno ou não ligava para as regras? Teve animais de estimação? Gostava de visitar seus parentes? passou por algum evento traumático? Através de algumas perguntas você pode definir padrões. Você também pode usar como base para seu personagem histórias e fatos ocorridos com amigos e conhecidos. É claro que você não precisa criar profundidade para todos os personagens (O carteiro Zé que aparece em um quadrinho entregando uma carta não precisa de background), apenas para os que terão relevância e importância na trama.

Um passado para os personagens é também uma ferramenta útil para se explorar na história. Clichês como o irmão malvado, um pai ausente, um antigo amor do passado são recursos muito utilizados. Usar o passado como elemento da trama também é uma boa forma de cativar o público, pois faz com que eles conheçam mais a fundo o personagem, podendo compreender seu comportamento, suas atitudes e podendo se identificar mais com eles. Existem histórias que giram totalmente ao redor da história de um único personagem, mas deve se cuidar ao fazer isso para que os outros personagens não acabem se tornando desnecessários ou mal aproveitados. Também é interessante o contrário, fazer com que as experiências passadas dos personagens que seguem o herói agreguem coisas a aventura.

Nem toda história exige personagens profundos e densos, existem muitas histórias boas com personagens rasos e pouco aprofundados (Senhor dos Anéis é uma história excelente com personagens pouco explorados). A profundidade do personagem varia de acordo com o tipo de história (dificilmente você vai estar interessado no passado da colegial de um hentai não é?). Existem histórias onde a trama e o enredo possuem tanta força que os personagens podem ser rasos e superficiais, servindo apenas como fios condutores ou testemunhas dos acontecimentos. Mesmo quando a história se sobrepõe aos personagens é interessante explorar como os acontecimentos afetam cada um deles, suas reações e emoções imediatas diante dos fatos.

TOQUES FINAIS

Para finalizar, defina as características que fazem seu personagem ser único e diferente. Imagine como ele fica parado, se é largado ou mantem a postura ereta, se anda arrastando os pés ou tem passadas rápidas, se gosta de sorrir ou se tem a cara amarrada. Bole alguma frase marcante que seja só dele, uma marca registrada que o torne memorável. Ele pode ter alguma atitude em especial, uma mania ou ritual (um exemplo era o personagem Maximus de GLADIADOR, que sempre antes de um combate pegava um punhado de terra chão). Se você souber pegar um clichê e aplicar peculiaridades e características incomuns, com certeza irá criar personagens cativantes e memoráveis.

Apresentei aqui algumas dicas e levantei algumas questões para você ponderar da próxima vez que for criar algum personagem. Pense bem no seu projeto e veja qual o tipo de personagem que ela pede, se devem ser profundos ou se podem ser rasos. Use os arquétipos como ferramentas para trabalhar a função dos personagens na trama e crie um background para deixa-los mais ricos e humanos. Qualquer dúvida deixe aqui nos comentários, em breve falaremos da construção física do personagem, até a próxima!

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3 Respostas para “FANZINES-PERSONAGENS (PARTE-01)

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